Porto Velho, Manaus e o interior de Rondônia estão sob fumaça esta semana. Veja o que funciona em casa, quando usar máscara e quando a bombinha não basta.

6 min de leitura · Escrito e revisado por Dra. Luciana Maraldi · CRM-RO 2366 · RQE 1514

Criança lendo na cama em casa, com a janela fechada mostrando um dia cinza de fumaça das queimadas

Resumo em 3 pontos

  1. A fumaça das queimadas não causa alergia: ela irrita olhos, nariz e brônquios, e descompensa a asma e a rinite de quem já tem.
  2. O que mais protege é reduzir o ar de fora que entra: janelas fechadas nos picos, ar-condicionado com filtro limpo e purificador HEPA (filtro de alta eficiência para partículas, que retém as partículas finas da fumaça) no quarto. Umidificador não filtra fumaça.
  3. Quem tem asma segue o plano de ação por escrito (bombinha com espaçador) e vai à emergência (SAMU 192 (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência)) se a falta de ar não melhorar.

Se o céu de Porto Velho amanheceu cinza e o cheiro de fumaça entrou em casa, você já sabe o que vem depois: tosse à noite, nariz fechado, criança chiando. As queimadas voltam todo ano, de agosto a outubro, mas nesta semana a fumaça está muito mais densa sobre a Amazônia. Se a dúvida é “fumaça das queimadas e asma na criança, o que fazer?”, as respostas práticas estão aqui.

Neste artigo
  1. A fumaça das queimadas causa alergia ou só irrita?
  2. Quem corre mais risco com a fumaça em Rondônia e na Amazônia?
  3. O que fazer dentro de casa para reduzir a fumaça?
  4. Precisa usar máscara para sair? E exercício ao ar livre?
  5. Criança com asma piorou na fumaça: quando usar a bombinha e quando ir à emergência?
  6. Perguntas frequentes

A fumaça das queimadas causa alergia ou só irrita?

A fumaça das queimadas irrita, não causa alergia. Ela é uma mistura de gases e partículas finas que agride olhos, nariz, garganta e brônquios de qualquer pessoa. Em quem já tem rinite ou asma, essa irritação descompensa a doença: o nariz fecha, a tosse volta e pode vir a crise.

As partículas finas, chamadas PM2,5 (partículas com menos de 2,5 micrômetros, cerca de 30 vezes mais finas que um fio de cabelo), chegam ao fundo do pulmão. Segundo o posicionamento da ASBAI (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia) sobre as queimadas na Amazônia, elas causam ardência nos olhos, coriza, garganta seca e tosse. Quem é saudável e fica pouco exposto não corre risco significativo. O problema é a exposição de dias sobre uma via aérea já inflamada.

Quem corre mais risco com a fumaça em Rondônia e na Amazônia?

Crianças, gestantes, idosos e pessoas com asma, rinite, DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) ou doença do coração correm mais risco. Crianças respiram mais ar em relação ao tamanho do corpo e têm o pulmão em formação. No Norte do Brasil, as ondas de fumaça aumentam em cerca de 38% as internações por doenças respiratórias.

Em Porto Velho há um agravante: o calor. Casa fechada sem ar-condicionado é quase impossível, e a fumaça entra por frestas e pela ventilação. A ASBAI (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia) lembra que a fumaça de fora torna o ar de dentro prejudicial também.

Na prática do consultório

“A fumaça das queimadas irrita a mucosa nasal e os brônquios com sintomas semelhantes aos da rinite e da asma. Em crianças pequenas, que têm as vias aéreas estreitas, a inflamação é rápida e pode durar meses, muitas vezes exigindo um tratamento contínuo com bombinhas de manutenção nessa época do ano. O erro mais frequente que vejo no consultório é abandonar esse tratamento assim que surgem os primeiros sinais de melhora e ficar apenas usando ‘bombinhas’ de resgate toda hora, além de ignorar a importância da lavagem nasal diária, mesmo sem sintomas.”

Em números

  • 38% de aumento nas internações respiratórias no Norte do Brasil nas ondas de fumaça das queimadas; 23% no país (estudo com mais de 2 milhões de internações, 2008 a 2018; Requia e cols., Nature Communications, 2021)
  • 1 em cada 4 internações respiratórias do estudo era de criança com menos de 5 anos (Requia e cols., 2021)

O que fazer dentro de casa para reduzir a fumaça?

Feche portas e janelas nos horários de mais fumaça, ligue o ar-condicionado com filtro limpo e entrada de ar externo fechada e, se puder, use um purificador com filtro HEPA (filtro de alta eficiência para partículas, que retém as partículas finas da fumaça) no quarto da criança. Umidificador não filtra fumaça.

O que ajuda e o que não ajuda, segundo Ministério da Saúde, ASBAI (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia), Academia Americana de Pediatria e GINA (Global Initiative for Asthma, a iniciativa internacional de diretrizes para a asma):

MedidaAjuda?Por quê
Janelas e portas fechadas nos picosSimAbra quando o ar melhorar
Ar-condicionado com filtro limpo, sem ar externoSimRecircula; filtro sujo devolve poeira e mofo
Purificador HEPA (filtro de alta eficiência para partículas, que retém as partículas finas da fumaça) no quartoSim, com limitesReduz partículas; não substitui o tratamento
UmidificadorNão filtra fumaçaCompensa ar seco; em excesso favorece mofo e ácaro
Velas, incenso, fritura, aspirador comumPioraGeram partículas; limpe cinzas com pano úmido

Sobre o purificador, a evidência é honesta: um aparelho HEPA (filtro de alta eficiência para partículas, que retém as partículas finas da fumaça) do tamanho do cômodo, sem gerar ozônio, reduz as partículas (Academia Americana de Pediatria), mas a GINA (Global Initiative for Asthma, a iniciativa internacional de diretrizes para a asma) considera limitada a evidência de que isso evite crises. Ele complementa o tratamento, não o substitui.

Atenção com o umidificador: ele não retém partículas nem filtra a fumaça. Sua função é apenas equilibrar a umidade que o ar-condicionado retira do ambiente. O aparelho deve ser ligado apenas quando a umidade do ar estiver abaixo de 40%. Para não errar e evitar a proliferação de mofo, ligue-o por no máximo 4 horas por noite em fluxo baixo. Se o chão ou as paredes amanhecerem molhados, você exagerou no tempo. Uma alternativa simples que funciona muito bem até hoje é colocar toalhas molhadas na cabeceira da cama.

Beba mais água (Ministério da Saúde) e faça lavagem nasal com soro fisiológico 1 a 2 vezes ao dia: segundo o IV Consenso, ela remove secreção, partículas e mediadores da inflamação, e é barata e bem tolerada.

Precisa usar máscara para sair? E exercício ao ar livre?

Sim: se precisar sair nos dias de fumaça densa, use máscara PFF2 (peça facial filtrante classe 2, a máscara certificada no Brasil equivalente à N95) ou N95 (o padrão americano) bem ajustada ao rosto. Máscara de pano e lenço não filtram as partículas finas. Adie exercícios e brincadeiras ao ar livre, principalmente entre 12h e 16h. A melhor proteção continua sendo ficar em ambiente fechado.

O Ministério da Saúde recomenda PFF2 (peça facial filtrante classe 2, a máscara certificada no Brasil equivalente à N95), N95 (o padrão americano) ou P100 (filtro de eficiência máxima, 99,97% das partículas) nas saídas necessárias. A GINA (Global Initiative for Asthma, a iniciativa internacional de diretrizes para a asma) cita as máscaras como medida prática em incêndios florestais. Em criança, vale a idade e o ajuste: a partir dos 2 anos ela pode usar (Academia Americana de Pediatria), mas máscara frouxa protege pouco. Para bebês, a saída é não sair.

No esforço a criança respira mais fundo e inala mais fumaça. O Ministério da Saúde orienta evitar exercício ao ar livre quando o ar está ruim, sobretudo das 12h às 16h.

Criança com asma piorou na fumaça: quando usar a bombinha e quando ir à emergência?

Ao primeiro sinal de piora (tosse, chiado, aperto no peito), siga o plano de ação por escrito: bombinha com espaçador, nas doses do plano. Se a falta de ar não melhora com a bombinha, ou a criança fica sonolenta e não consegue falar ou beber, vá à emergência (SAMU 192 (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência)).

Seu filho ainda não tem um plano de ação por escrito para levar à escola? Ele é feito na consulta, para o caso dele, com as doses e os sinais de alerta que valem para ele.

O plano de ação por escrito é a ferramenta central. Segundo a GINA (Global Initiative for Asthma, a iniciativa internacional de diretrizes para a asma), ele mostra como reconhecer a piora, o que mudar nos remédios e quando procurar atendimento.

O Ministério da Saúde orienta o grupo de risco a atualizar o plano antes da temporada e manter os remédios em casa. Sem plano ainda? A avaliação de asma no Instituto de Alergia de Rondônia (IARO) começa por aí, e tratar a rinite alérgica junto ajuda: nariz e brônquios são a mesma via aérea.

Sinais de alerta

  • Bombinha de alívio mais de 2 vezes na semana ou tosse que acorda à noite
  • Tosse ou chiado que continuam depois que a fumaça passou
  • Nariz entupido e olhos ardendo por mais de 2 semanas
  • Criança que cansa para brincar
  • Urgência: falta de ar que não melhora com a bombinha, lábios arroxeados, sonolência: emergência (SAMU 192 (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência))

A fumaça mostrou que a asma ou a rinite não estavam controladas? A Dra. Luciana Maraldi, alergista e imunologista, atende em Porto Velho, particular e por convênios.

Perguntas frequentes

Como saber se é a fumaça ou um resfriado?

Resfriado costuma dar febre baixa e dor no corpo, e passa sozinho em poucos dias. A fumaça não dá febre: arde nos olhos, seca a garganta e melhora na sala com ar filtrado. Se os sintomas ficam depois que o ar limpa, investigue alergia.

Antialérgico ajuda contra a fumaça?

Não resolve a irritação, porque a fumaça não é alergia. Ele alivia a parte alérgica da rinite, que a fumaça descompensa. O que protege é respirar menos fumaça. Não comece, suspenda nem aumente remédios por conta própria.

Minha filha pode ir à escola nos dias de fumaça?

Sim, se os sintomas estão controlados. Peça educação física em local coberto e deixe na mochila a bombinha com espaçador e uma cópia do plano. Se ela acordou chiando ou precisou da bombinha de madrugada, fique em casa. A fumaça vai embora com as chuvas. A asma e a rinite que ela descompensou, não. Monte o plano para a próxima estação seca agora.

Referências

  1. Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), Comissão de Biodiversidade, Poluição e Clima. Queimadas na Amazônia durante a estação seca de 2023: posicionamento da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia. ASBAI, 2023. https://asbai.org.br/wp-content/uploads/2024/04/POSICIONAMENTO-ASBAI-Quein-MUP-LR-EG-1.pdf
  2. Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Queimadas e incêndios florestais: alerta de risco sanitário e recomendações para a população. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2026. https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/saude-ambiental/vigiar/publicacoes/queimadas-e-incendios-florestais-alerta-de-risco-sanitario-e-recomendacoes-para-a-populacao
  3. Global Initiative for Asthma (GINA). Global Strategy for Asthma Management and Prevention, 2026 update. https://ginasthma.org/reports/
  4. Requia WJ, Amini H, Mukherjee R, Gold DR, Schwartz JD. Health impacts of wildfire-related air pollution in Brazil: a nationwide study of more than 2 million hospital admissions between 2008 and 2018. Nat Commun. 2021;12:6555. https://doi.org/10.1038/s41467-021-26822-7
  5. Sakano E, et al. IV Consenso Brasileiro sobre Rinites (ASBAI, ABORL-CCF e SBP), 2017. Publicado como “IV Brazilian Consensus on Rhinitis: an update on allergic rhinitis”. Braz J Otorhinolaryngol. 2018;84(1):3-14. Texto em português: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/Consenso_Rinite_9_-27-11-2017_Final.pdf
  6. American Academy of Pediatrics. Wildfires: Taking Care of Your Children & Yourself. HealthyChildren.org, atualizado em 16/07/2026. https://www.healthychildren.org/English/safety-prevention/at-home/Pages/Wildfires-Information-for-Parents.aspx

Sobre a autora

Dra. Luciana Maraldi

Médica alergista e imunologista. CRM-RO 2366 · RQE 1514. Atende em Porto Velho, no Instituto de Alergia de Rondônia (Hospital 9 de Julho), e por telemedicina, particular, para quem está longe, com foco em rinite, asma, alergia alimentar, dermatite atópica, urticária e imunoterapia.

Conteúdo educativo. Não substitui a consulta médica.